Willy Cartier

Willy Cartier

Vamos falar das estrelas que lhe puxam os cabelos até às alturas, da matéria negra que tem nos olhos e do espaço em que se move. Da radiação que emite e da gravidade da sua força. No universo da moda, os criadores giram na sua órbita e as estrelas penteiam-lhe os cabelos. Existe uma nova Lei da Gravitação Universal onde Willy Cartier é um buraco negro, ao qual ninguém consegue escapar. Uma alma selvagem montada num cavalo nervoso. Um príncipe, na lenda de Shalimar. É um cometa que não comete erros na passerelle. Um corpo celeste que não anda, mas que desfila. Um manequim, pelo qual as marcas se continuam a apaixonar. É a teoria da relatividade a dançar. Um ator amoroso, com um olhar poderoso. Tem um raio cósmico pendurado ao peito, perto de um coração em alta tensão. É uma estrela, vestida de negro, que brilha depois do sol-posto. Willy Cartier tem a palavra pecado escrita nas maçãs do rosto.

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É o menino bonito de Ricardo Tisci, do vulto que voltou a erguer os pilares da Maison Givenchy. O preferido de um italiano que procura olhos negros e traços latinos, desenhados por um bom coração. O escolhido de um criador que rasga pano negro e desenha sorrisos com uma tesoura. Ricardo Tisci faz os castings com os próprios olhos, cheios de matéria negra. Cresceu numa fortaleza feminina. Foi criado por oito irmãs, com a mãe a tirar a prova dos nove. O diretor criativo da Givenchy aparece coberto de negro, confiante, com uma sensualidade dura, mas romântica. O homem Givenchy, na cabeça de Ricardo Tisci, confia tanto na sua sexualidade que pode brincar com os códigos femininos e com a ambiguidade.

“Ao dobrar a terceira esquina de Montargueil, ouve-se o barulho de armas de fogo. Deve ser ele a posar para alguma fotografia e a deixar mais uma imagem de marca. São muitas as fotos em que atira para matar, mas aguentem os cavalos, daqui só vem fogo amigo.”

Willy Cartier é um ator que rasga pano negro com um cigarro e tem um sorriso cortado com a tesoura da mãe. Um manequim que viu muitos castings com os próprios olhos e ficou cheio de ser a ovelha negra. A mãe dança dentro de uma fortaleza vietnamita e senegalesa e corta-lhe as t-shirts com uma tesoura francesa. O pai pinta e escreve. Pintou-lhe os traços e escreveu-lhe a palavra pecado, a sardas, no rosto. O manequim preferido da Givenchy aparece coberto de negro, vibrante, com uma sensualidade que desafia as leis da física quântica. Este homem, na passerelle de Ricardo Tisci, confia tanto na sua sexualidade que pode brincar com os códigos femininos e com a normalidade.

« Para o encontrar é preciso sentir o pulso às ruas de Paris. Pode dormir em Londres, em Nova Iorque, na Tailândia ou na Índia, mas vem sempre lavar a cara nas margens do rio Sena »

Tisci apontou-lhe o dedo e reconheceu-o. Porque as grandes almas reconhecem-se ao espelho. Cuidado… Esta vem montada num cavalo branco.

Ao dobrar a terceira esquina de Montargueil, ouve-se o barulho de armas de fogo. Deve ser ele a posar para alguma fotografia e a deixar mais uma imagem de marca. São muitas as fotos em que atira para matar, mas aguentem os cavalos, daqui só vem fogo amigo. Está armado com um sorriso. Seguindo um rasto de dinamite vê-se um chapéu, sentado de costas, a esconder as memórias certas. Seguindo um rasto de bom gosto esbarramos nas botas de Willy Cartier, nas quais acende cigarros, com fósforos mágicos. Abre-te Sésamo. Vamos entrar no mundo de um guerreiro tribal.

Tem 24 anos carimbados num passaporte que já viu mundo. Há pouco mais de três anos, mal sabia ele o que era a Givenchy. As únicas marcas que conhecia eram a H&M, a Chanel e a Tati, uma marca francesa de vestuário, onde uma das novas notas de 10 euros é capaz de dar para uma camisa, para uma calças e ainda oferecem um par de meias. Tinha um book só com uma fotografia, uma fotografia da escola. Conheceu muita gente que não interessa ao diabo, mas é impossível prejudicar qualquer lenda de Shalimar, nascida para brilhar. Por isso, chegou a hora de contar: Givenchy, Benetton, Chanel, Karl Lagerfeld, Jean Paul Gaultier, John Galliano, Guerlain e Diesel. Fora os trocos.

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Está a ficar escuro e tudo é negro. Um par de skinny jeans, uma t-shirt rasgada e um casaco oferecido. Dois buracos negros nos olhos, a emitir radiação térmica. O cheiro de Paris na pele e as impressões digitais gravadas nas luvas. As memórias certas debaixo de um chapéu. Nele, os clichés não sobrevivem mais de dois segundos e é preciso uma pulseira, para entrar na sua festa privada. Willy Cartier tinha uma mão dourada e outra prateada. Decidiu tirar a joalharia dourada. Disse que era demasiado. Tem um raio ao peito e está a deixar o mundo impressionado. Tem a palavra sucesso incrustada no couro preto. Chega e ouvem-se as quatro batidas do Rock and Roll. Fala e ouve-se o som de um final feliz, nuns auscultadores sem fios. Está tudo em ordem neste buraco negro. Willy Cartier continua a brilhar no escuro, mesmo sem joalharia dourada.

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Patrícia Tavares

Journalist, voice over artist.

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