Karl Lagerfeld e Choupette: Línguas de Gato

Karl Lagerfeld e Choupette: Línguas de Gato

O estudo da metafísica consiste em procurar, num quarto escuro, um gato preto que não está lá. – Voltaire

Na loja do mestre Karl há gatos por toda a parte. Se pudesse levava todas as gatas do mundo a experimentar um vestido. Gatas heroínas, mães solteiras, gatas viúvas e mães abandonadas. Levava vizinhas chatas, senhoras cansadas e meninas perdidas. Se pudesse tinha levado a minha mãe, a tua, a tua vizinha chata e aquela senhora cansada. Se Karl Lagerfeld gosta de gatos ou de gatas não interessa. O que interessa é que sabe passar a mão pelo pêlo das gatas e assanhar os gatos.

É a futilidade à distância de um vestido e a felicidade à distância de momentos vestidos. Momentos vividos e sentidos ou sentidos vestidos. A gata heroína ainda se lembra do dia em que perdeu uma guerra e ganhou uma batalha, com aquelas botas da tropa. A mãe solteira tem memórias solitárias dos primeiros sapatinhos e dos primeiros passinhos. As gatas viúvas vestiram um fato preto, num dia negro e as mães abandonadas lembram-se da cor do primeiro encontro e ainda guardam um lenço bordado, entregue ao cheiro da naftalina e coberto com lágrimas secas ao sol.

Na loja do mestre Karl, vi gatos e gatas por toda a parte. Vadios, sabidos e outros mais domésticos, mas todos gostam de se esconder em sítios improváveis. Um passou-me a pata cheia de almofadas por baixo do balcão. Outro deu uma pirueta no ar, caiu e pisou-me os calos. Outro com ar de fofinho arranhou-me a mão direita, aquela que se estende. À porta apareceram ainda muitas gatinhas, prontas a lamber feridas e um outro gato das botas, desaparecido na temporada do cio, que voltou à loja do dono a ronronar.

Na loja do mestre Karl vês gatos por toda a parte, porque ele sabe que a vida é feita de miaus e de ronrons, de pessoas que se vêm ao espelho e que têm gatarias na cabeça. Ele sabe onde a bicharada vive, o que gosta, o que quer vestir e o que come. Sabe também onde estão os instintos mais felinos. Por isso, ofereceu um ipad à gata de estimação e instalou outro no provador, para o gatedo em geral. Não se esqueceu de o ligar ao Facebook, o local de encontro das grandes ninhadas. Tira-te uma fotografia e publica-a, para que os olhos de lince espreitem pelas cortinas e te ofereçam umas quantas línguas de gato.

É o fim da bichanada. Gata para aqui, gato para acolá… Espera lá que eu vou já. “Oi gata, tudo bem? Olá gato, tudo bom.” Em cima do telhado, o gato deve passar a lince ibérico, deve tornar-se numa espécie em vias de extinção e deixar de se alimentar de ratazanas. A gata deve passar a siamesa, deve ficar ligada ao teu corpo e não querer fugir com um vadio. Tudo o resto são línguas de gato. Os gatos gostam de se esconder em sítios improváveis. Procura bem na tua cabeça. Rin-hau.

PT

Mais sobre o artista aqui:  BL67

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@KarlLagerfeld 25, rue Vieille du Temple 75004 Paris

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Karl Lagerfeld  Cat in the head T-Shirt // Design by Benoit Leroux // Limited Edition, 150 units.

Karl Lagerfeld Cat in the head T-Shirt // Design by BL67 // Limited Edition, 150 units.

KAPTURE, KREATE & POST

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Karl Lagerfeld T-shirt // Givenchy Leather Leggings // Gucci Shoes – Babouska Collection

Karl Lagerfeld Store // Paris

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Kapture, Kreate & Post Facebook Picture - Karl Lagerfeld // Paris

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Patrícia Tavares

Journalist, voice over artist.

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