Crise dos refugiados da Síria: Três toques de cabeça, duas fintas e uma rasteira

Crise dos refugiados da Síria: Três toques de cabeça, duas fintas e uma rasteira

Almuhannad Abdullmhseen é um filho do pai. Tem a lagoa das sete cidades nos olhos. Provavelmente nunca foi a São Miguel, mas nos últimos dias sei que anda a rezar a muito santo. Até aos que não são da terra dele. Tem uns olhos lindos, a puxar para o superlativo. No Facebook, deve ter uma data de amigos e, pelo menos, 58 seguidores. Agora já tem 60. Escreve na internet com carinhas tristes, com carinhas choramingas e com coraçõezinhos destes: <. Iguais aos nossos. Calça chuteiras, veste equipamentos e tira umas selfies.

Almuhannad Abdullmhseen é o filho mais velho do Mister. O Mister Osama al-Abd al-Mohsen, também conhecido como Osama al-Ghadab ou Hajj Osama – eu sei lá – Mister é Mister. O pai do filho foi treinador do al-Fotuwa SC, um clube sírio da Primeira Liga, de Deir ez-Zor, a sua cidade natal, que foi dominada pelo reino animal. Foi capturado pelo regime sírio e fugiu dos bacanos do Estado Islâmico – que lhe queriam dar três toques de cabeça. Este Mister tem um filho mais pequenino, de 7 anos. Este senhor, de primeira liga, fez-me chorar e, nos últimos dias, vi-me síria, para me conseguir aguentar. Mister, caí consigo.

Ontem, o Mister já estava em Budapeste, dentro de um comboio para Viena e o filho mais velho só não sabe mais porque estas pessoas estão todas sem rede. O treinador fintou a má sorte. O treinador fintou a polícia e virou notícia. O treinador tentou escapar de um campo de refugiados na Hungria e levou uma rasteira, de uma jornaleira.

O governo húngaro quer registar todos os refugiados que chegam, fazer-lhes uma estrelinha com tinta negra no dedo indicador e esmagá-los com o polegar. Quer tirar-lhes o futuro e as impressões digitas. O governo húngaro escreveu as últimas linhas das políticas anti-imigração, a bombar a todo o arame farpado a partir de 15 de setembro, e pretende mandar a mercadoria para trás. O pai do filho pequenino, e do maior, não confia na polícia e quis escapar. O pai dos filhos levou uma rasteira de uma arruaceira, a puxar para o foleira.

Não é a primeira jornaleira, com atitude de cobra cuspideira, que aplica a técnica da rasteira. Até é prática bem costumeira. Mas cuidado sempre senhores jornalistas, com o que escrevem nas redes sociais. Cuidado com o que vão pensar os demais. Cuidado com as práticas e com os manuais. Cuidado com qualquer cobra cuspideira. Cuidado que ainda vos tiram a lapiseira. Cuidado com a ética postiça, com a acústica, com a fonética e com a gramática. Cuidado com a semântica e com a temática. Cuidado com o cuidado.

Existe um jornal, em cima da churrasqueira do nosso quintal. Por lá é tudo orgânico e só se papa estética, estilística, poética e espinha dorsal. É melhor não papar propaganda, espreitar da nossa varanda e olhar com o coração, para a outra banda. É melhor abrir o livro do êxodo e partir o mar em dois. É melhor colocar os terroristas à frente dos bois e deixar o reino animal entregue à gerência e aos serviços de inteligência. O resto da baboseira só serve para abanar a churrasqueira.

Em qualquer “Médio Oriente para Totós”, a corrente aponta o pêndulo da justiça para o Ocidente. O medo é o segredo das corporações e das governações. É o enredo dos que estão à frente das nações. Cuidado com a desgraça que agora começa, cuidado com tudo o que aconteça, cuidado com o reino animal – que nos vem dar cabo da cabeça.

Cuidado com o filho. Cuidado com o pai. Cuidado com o mais pequeno. Cuidado com o treinador. Cuidado com o senhor. Cuidado com o Mister.
Ao outro camarada que caiu na linha de comboio e ficou com a cabeça rachada. Ao que fugiu da polícia e deu uma valente cabeçada. Aos treinadores de bancada, aos que mandam a colherada – partam o mar e levantem a barricada. A todos os que estão a levar pancada. Aos que escrevem na internet com carinhas tristes, com carinhas choramingas e com coraçõezinhos destes: <. Iguais aos nossos. Entrego-vos as minhas lágrimas, a minha lapiseira e a minha espinha dorsal. Mister, caí consigo.

PT

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Patrícia Tavares

International freelance journalist, writer and voice over artist. Patrícia Tavares is a Portuguese journalist based in France, specialising in broadcast, online and print fashion journalism. Currently working at Euronews television channel and contributing to a variety of publications and digital platforms at the forefront of the fashion industry. A presence at Paris Fashion Week and top fashion events around Europe. Soon to be an author and considered influential with an edgy vision on her fashion and lifestyle blog. Dressed in black on black and while living “la vie en rose” this fashionista indulges her rock-chic style striding in Tom Ford, Hedi Slimane and Ricardo Tisci.

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