Beijar a mão ao Padrinho

Beijar a mão ao Padrinho

O Rio Sena e a Torre Eiffel são os padrinhos de todos os casamentos. Ele é o Barco do Amor, ela é a Rosa dos Ventos. Diz-que-disse que as regras estão escritas no céu de Paris, a pó de giz. Noivos, pais, padrinhos e meninos dos raminhos, a bordo do barco do amor, todos ao quadro, por favor.

@pt_patriciatavares

Ao meu irmão – que vai casar.

 As margens do rio Sena são como o colo do padrinho e tirar uma fotografia na Torre Eiffel é como vestir a roupa de domingo, para ir à madrinha. É em noites frias e em jantares, só para um, que se encontra o que Paris tem para dar, nem é preciso sair do sítio, sequer procurar. O que é que Paris tem, que encanta quem de lá vem? Qual é o valor da cidade do amor? O que é que o rio traz no bolso? E em que direção sopra a Rosa dos Ventos? As desilusões lavam lágrimas no rio até se aperceberem que o céu, de tanto olhar, fica com a roupa a corar. Diz-que-disse que as regras do amor foram escritas no céu de Paris, com um pauzinho de giz. Noivos, pais, padrinhos e meninos dos raminhos. Desimpedidos, bem casados, empecilhados, viúvos e divorciados,­ todos ao quadro, por favor. Paris manda escrever sobre o amor.

O Sena representa todos os padrinhos e é casado com a Torre Eiffel, só não assinaram o papel. Todos os dias, ao anoitecer, convida-a para jantar. Ela fica com vinte mil lâmpadas nos olhos, a piscar. O Sena divide-se em vários braços e faz braço de ferro com as muralhas de pedra. Em Paris, abre o esquerdo e o direito e abraça a Île-de-la-Cité, uma ilha que parte a cidade em duas margens: a Rive Gauche e a Rive Droite. Abençoa a capital francesa e percorre 776 km até ao Canal da Mancha.

O padrinho de casamento representa o guerreiro de confiança, o menino da Aliança, com a função de manter a ordem e, claro, ajudar à festa. Desde a Idade Média que tem vários braços. É o braço direito do noivo e faz braço de ferro para defender a noiva. É aquele que sabe o caminho de volta, da despedida de solteiro. É a bússola moral e espiritual. Faz parte da família, da irmandade ou da Máfia e reúne os gangsters. Faz com que o filme da despedida seja uma autêntica troca de tiros no escuro, com o Don Corleone sentado à mesa do Al Paccino. Abençoa, dá o braço direito e a mão que estiver mais a jeito. Porque, segundo Vitorino Nemésio, vai haver “Mau Tempo no Canal” e no melhor romance cai a mancha.

A Torre Eiffel representa todas as madrinhas. Tem um pulso de ferro forjado, alicerces de aço, já viu tudo e de tudo. É uma autêntica senhora, mede 300 metros de salto alto e, em dias de calor, consegue dilatar até 17 cm. Ninguém morreu a erguer os seus pilares, mas já viu uns 400 suicídios desde o topo do chapéu. O peso e a idade não diz, porque é uma autêntica senhora. Já assistiu a milhões de encontros e casamentos. Tantas pessoas felizes, outras sozinhas ou abandonadas, sortudas ou azaradas, bonitas ou mal amanhadas. Tem um átrio feliz e umas vigas que dilatam até 17 cm, em dias de maior calor, para que caibam nela todas as histórias de amor. Esta madrinha não quer saber se as regras de etiqueta dizem Chanel, Boutique C ou unhas de gel. Quem já serviu em casamentos, com talher, sabe que é preciso cuidado, na altura de meter a colher. A madrinha só existe para ser a torre, para ver tudo, para dar as boas vindas, com um pulso de ferro e para te erguer até ao topo.

O que é que Paris tem? Tem dois padrinhos que não julgam ninguém. Qual é o valor da cidade do amor? É a segunda maior economia da zona do euro, porque os padrinhos fazem diminuir a taxa de aflição. O que é que o rio traz no bolso? Uma criança que, a meio do caminho, já perdeu uma aliança. Em que direção sopra a Rosa dos Ventos? Bem forte, para Norte. Quem são aqueles, sentados ao colo do Sena, com perninhas à chinês, com uma garrafa de vinho e uma baguete, partida em três? São como nós. São como vocês. Todos sentados, à espera de ser abençoados.

A bússola moral diz que perder o Norte pode ser a nossa sorte. Diz-que-disse que basta soprar bem forte. O rio Sena diz que estamos todos no mesmo barco. Nunca sonhamos casar ou apadrinhar, até deixarmos de lavar lágrimas no rio. Até olharmos para o céu e vermos que alguém, de tanto olhar, até fica com a roupa a corar. A madrinha diz que, se nunca pudeste ir a Paris, ver o que está escrito com um pau de giz, só tens de levantar a cabeça, porque o céu é igual para todos. É favor limpar os sonhos ferrugentos e as bússolas da Era dos Descobrimentos. Para mais direções, consultar a Rosa dos Ventos. O céu está a olhar. Vi-o corar. A sua benção, Padrinho!

patricia tavares

@pt_patriciatavares

Sena

Patrícia Tavares

International journalist, writer and voice over artist. Patrícia Tavares is a Portuguese journalist based in France, specialising in broadcast, online and print fashion journalism. Currently working at Euronews television channel and contributing to a variety of publications and digital platforms at the forefront of the fashion industry. A presence at Paris Fashion Week and top fashion events around Europe. Soon to be an author and considered influential with an edgy vision on her fashion and lifestyle blog.

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